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Três perguntas para o Professor David Duarte, especialista em educação para o trânsito

Publicado em terça-feira, 30 de outubro de 2018

Newsletter - 30/10/2018 - 51ª Edição

Criado na Suécia, em 2008, o programa Visão Zero estabeleceu novos paradigmas para a construção de um trânsito seguro. Parte-se do princípio de que os acidentes são previsíveis, uma vez que as pessoas cometem erros, e que sistemas de segurança viária precisam prever e criar mecanismos de proteção para o caso de ocorrência de falhas humanas, considerando que nenhuma morte ou ferimento grave em acidentes é aceitável. Na entrevista abaixo, David Duarte, especialista em educação para o trânsito e professor de medicina da Universidade de Brasília (UNB), esclarece alguns pontos do programa Visão Zero.

O programa Visão Zero parte da premissa de que nenhuma vida perdida no trânsito é aceitável. Como isso funciona?

O programa Visão Zero avança em relação a paradigmas tradicionais, lançando uma nova visão sobre segurança. Por exemplo: tradicionalmente, a ocorrência de acidentes é apontada como o principal problema do trânsito. Pela visão moderna, o maior problema são as mortes e os feridos graves decorrentes dos acidentes. Pela visão tradicional, fatores humanos são responsáveis pela maioria dos acidentes. O que o Visão Zero traz de novo é o reconhecimento de que as pessoas são frágeis e cometem erros e que os projetistas dos sistemas de trânsito devem, necessariamente, prever falhas e criar mecanismos de proteção para isso.

Como o Brasil se insere nesse contexto?

A nossa situação de trânsito é precária sob vários aspectos, especialmente no ambiente de circulação, que é hostil. Temos uma diversidade muito grande de veículos circulando: existem os muito modernos e também as carroças, transitando sem qualquer manutenção. Basta ver os veículos que trafegam nas cidades e no interior para verificar que a heterogeneidade é muito grande. É preciso evitar o conflito entre veículos, pedestres e ciclistas. De cada duas famílias brasileiras, uma delas tem algum histórico de envolvimento em acidentes. A solução não é imediata, ainda há muito o que fazer, mas é preciso começar. Medidas simples como transformar um cruzamento em rotatória; mexer no temporizador do sinal de trânsito, prevendo que idosos atravessam mais devagar; reduzir limites de velocidade; e conscientizar sobre o uso de cinto de segurança no banco traseiro dos veículos, preservam vidas. A premissa básica é eliminar riscos antes que eles causem danos.

Quais os fatores determinantes para obter resultados?

Antes de tudo, liderança e vontade política, em âmbito nacional. É preciso ter uma visão holística, sistêmica, para construção de um trânsito mais seguro, fazendo modificações físicas no espaço urbano, promovendo a separação de fluxos (vias, calçadas, ciclovias) e a redução nos limites de velocidade, por exemplo. Investir em educação e infraestrutura é fundamental. Estatísticas apontam que para cada R$ 1 investido em prevenção, o Estado deixa de gastar R$ 5 no ano seguinte. É preciso romper com a visão tradicional de que a responsabilidade por acidentes é dos condutores ou das vítimas. O sistema todo precisa funcionar em harmonia, o ambiente de circulação tem que "perdoar" possíveis erros, por meio de um amplo conjunto de intervenções.




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