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Três perguntas para Willian Cruz, coordenador do “Vá de Bike”

Publicado em segunda-feira, 25 de março de 2019

Newsletter - 25/03/2019 - 73ª Edição

O uso de bicicletas como meio de transporte nas grandes cidades é considerado positivo por diversas razões, entre elas, a de não poluir e de reduzir o número de automóveis em circulação. No entanto, para Willian Cruz, que pedala desde 2000 nas ruas da cidade de São Paulo e é coordenador do projeto “Vá de Bike”, é preciso conscientizar os motoristas de que a bicicleta não é um obstáculo, que o ciclista tem direito a circular nas vias, e que um comportamento agressivo ou imprudente põe em risco a vida de todos. Ele defende o investimento em infraestrutura adequada à circulação das bicicletas, com a construção de ciclovias e implantação de ciclofaixas, que criem um ambiente mais seguro para ciclistas e pedestres. Confira abaixo a entrevista completa.

É crescente o uso de bicicletas para locomoção nas grandes cidades. Como tornar esse tipo de transporte mais seguro, evitando acidentes?

O risco no uso da bicicleta passa, claro, pelo comportamento do ciclista, mas o que mais influencia é o comportamento dos motoristas ao redor. Um motorista impaciente, que não aceita a bicicleta como um veículo e age de forma agressiva com os ciclistas que encontra pelo caminho é um sério fator de risco.

Para mitigar esse problema, há quatro ações que precisam ser executadas: conscientizar, coibir, proteger e incentivar. Conscientizar motoristas a partir de campanhas públicas, que esclareçam que a bicicleta é um veículo e tem direito de circulação; que os ciclistas nas ruas não são obstáculos, mas pessoas; e que essas pessoas podem se ferir gravemente, cabendo ao motorista tomar esse cuidado.

Coibir o comportamento agressivo ao dirigir, que por vezes chega a incorrer em crime de trânsito, pois a certeza de impunidade, ao fechar ou ameaçar um ciclista, permite que os maus motoristas continuem praticando esses atos. Em países onde a cultura de uso da bicicleta está bem estabelecida, um motorista que ferir um pedestre ou ciclista tem sérias punições, o que contribui para que evitem situações de risco, fazendo com que os índices de mortes no trânsito sejam muito menores do que por aqui.

E proteger quem se desloca de bicicleta construindo infraestrutura adequada, que pode ser ciclovia, ciclofaixa ou até ciclorrotas em alguns casos.

Mesmo em países como Holanda e Dinamarca, que lideram mundialmente o uso de bicicleta na divisão modal, a construção de estrutura de proteção é levada muito a sério, para que as ruas sejam seguras não só para ciclistas experientes, mas também para crianças e idosos que se deslocam sozinhos em suas bicicletas. Fiz uma cicloviagem de três dias pela Holanda e, ao longo dos 200 km que trafeguei, passando por estradas, campos e cidades como Roterdam, Utrecht e Amsterdam, raros foram os trechos de via compartilhada. E em todos eles, placas ou sinalização de solo informavam claramente que a preferência era de bicicletas e que os motoristas deveriam aguardar atrás delas até um momento em que fosse possível ultrapassar em segurança, não importando a velocidade em que estivessem.

Por fim, diversos estudos e experiências práticas no mundo já mostraram que quanto mais bicicletas nas ruas, mais seguras elas se tornam, até mesmo para os motoristas. Há vários motivos para isso: as bicicletas se tornam menos "invisíveis", pois estando em maior quantidade, os motoristas passam a identificá-las com mais facilidade como um dos componentes do trânsito; 2) os motoristas aprendem a lidar melhor com a presença de ciclistas, como resultado da prática cotidiana; 3) cada vez mais pessoas têm um amigo, um familiar ou mesmo um amor que pedala e passam a compreender melhor quem utiliza a bicicleta e a proteger a vida dos ciclistas nas ruas.

Está sendo especulado a possibilidade de aplicação de multas para ciclistas e pedestres, caso desrespeitem regras de segurança viária. Como vê essa medida?

Vejo como uma medida que pode desincentivar o uso da bicicleta e colocar os ciclistas em maior risco. Vejamos: as únicas situações previstas inicialmente na resolução do Contran são pedalar na calçada e conduzir "de forma agressiva".

Sobre pedalar na calçada, temos diversos problemas de ordem prática. Se mantido o texto da resolução, serão considerados infratores aqueles que usam a calçada para proteger uma criança na cadeirinha; as próprias crianças em bicicletas com rodinhas; e outros casos em que o ciclista não tem destreza ou coragem para pedalar em meio aos carros. Ou seja, aquela escapada para a calçada para fugir das ameaças de caminhões, ônibus e táxis será passível de multa. Isso tem dois efeitos: o de fazer com que muita gente desista de usar a bicicleta porque não se sente segura em meio aos carros; e que tantas outras pessoas sejam expostas a risco direto em locais com trânsito pesado e comportamento agressivo de motoristas.

Não há como resolver isso sem tornar o trânsito mais seguro e receptivo aos ciclistas, o que nos leva à questão anterior. Calçadas são ruins para pedalar. O único motivo para as usarem é a sensação de segurança. Portanto, a única forma de tirar essas pessoas da calçada é oferecer a elas uma área com mais segurança, como uma ciclovia ou ciclofaixa. Sobre a condução agressiva, há a preocupação de que se queira coibir o uso da bicicleta em determinada via ou localidade, com blitzes parando ciclistas, para autuar por condução agressiva e apreender bicicletas, sem apoio legal.

O que mudou desde a criação do projeto “Vá de Bike” e quais são os planos para os próximos anos?

Nesses 17 anos, houve um aumento enorme na quantidade de bicicletas nas ruas, a malha cicloviária cresceu no país como um todo e também mudou o comportamento dos motoristas. Embora ainda tenhamos um longo caminho pela frente, muitas pessoas começaram a entender a bicicleta como meio de transporte e a respeitar e proteger os ciclistas que encontram pela frente quando estão dirigindo. Isso decorre tanto do aumento das bicicletas quanto da atuação da imprensa, que tem esclarecido o papel da bicicleta na mobilidade urbana e exaltado suas vantagens. Afinal, quem está pedalando ajuda a reduzir os congestionamentos ao deixar de usar o carro, ou contribui para diminuir a lotação dos transportes públicos, tão saturados atualmente. Quanto mais gente usando a bicicleta, melhor até para quem não tem a menor intenção de utilizá-la.

Em relação ao Vá de Bike, nosso público se expandiu muito, graças às redes sociais. Já temos quase 200 mil seguidores em nossa fanpage do Facebook e estamos presentes em outras três redes sociais. Publicamos nesse tempo mais de duas mil páginas de conteúdo em nosso site, que recebe mais de 2 milhões de visitas por ano. A partir desse ano, vamos intensificar a produção de vídeos, pois identificamos essa tendência entre nosso público. Os vídeos, sempre sucintos, virão acompanhados de uma matéria ou artigo no site entrando em detalhes e fornecendo links, para quem quiser entender mais sobre o assunto. Levaremos informação onde nosso público estiver.

Para saber mais sobre o projeto Vá de Bike, clique aqui.




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